Publicações Acadêmicas
Este trabalho busca refletir sobre as vivências on-line e a relação com o mundo da vida, a subjetividade e a intersubjetividade. Foram utilizadas as obras de Husserl (1950a, 1950b, 1952, 1954), visando o retorno à intuição experiente e metodologicamente orientada pelas reduções fenomenológicas. Compreender os aspectos estruturantes através das reduções permite destacar as implicações da vida híbrida, como fragmentação das perspectivas, a dinamicidade e a velocidade de transmissão da informação por imagens bidimensionais em formato de janelas, sem materialidade e espacialidade concreta, que promovem uma reconfiguração perceptiva da consciência. No mundo da vida, há um esmaecimento da hierarquia entre científico e cultural, que modifica a esfera de valores, rompe com lógicas habituais de sucessão temporal e contiguidade e torna a experiência do tempo histórico fugaz. Reflete-se sobre a inserção das tecnologias nos cuidados à saúde mental. Sugere-se o incentivo à literacia digital e a legitimação das experiências sensíveis no mundo.
CAPÍTULO - Psicólogo/a na era digital - considerações sobre a identidade profissional. LIVRO - ÉTICA E PSICOLOGIA: reflexões na pandemia e para além dela Volume 1, EDITORA CRV, 2021.
O presente texto é resultado das reflexões realizadas por ocasião de nossa participação no III Seminário de Fenomenologia e Psicologia e no I Seminário Internacional de Psicologia, Fenomenologia e Saúde: Sofrimento Humano, Fenomenologia e Saúde Mental em Tempos de Pandemia, realizados na Universidade Federal de Roraima (UFRR), na cidade de Boa Vista.
As considerações aqui contidas, em parte apresentadas nos referidos congressos — tanto na forma de resumo escrito quanto de apresentação oral — correspondem a resultados parciais de um projeto de extensão cadastrado na Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e Extensão (PRAE) da UFRR, intitulado “Rodas de Conversa Sobre-Vivências – Escola e Famílias na Pandemia”.
Desde o início da pandemia de Covid-19, o Escritório de Saúde Mental da Pró-Reitoria de Graduação da USP tem oferecido acolhimentos, pesquisas e ações de promoção à saúde de estudantes de graduação e pós-graduação, mediados pelas tecnologias digitais.
Dentre as modalidades oferecidas, a Roda de Conversa tem como foco a abordagem socioemocional e pretende sensibilizar, construir e fortalecer redes de apoio entre estudantes, professores e funcionários. Seu principal objetivo é acolher, de forma ágil, a demanda de ajuda decorrente dos problemas psicológicos e emocionais relacionados ao distanciamento físico.
Diversas formas de interação e estratégias de mediação, baseadas na construção de conhecimento a partir da experiência vivida, foram utilizadas. A Roda de Conversa propicia o compartilhamento de ansiedades, medos e esperanças de seus participantes. Cada fala pode ser representativa de um sentimento grupal, mas também pode revelar diferenças e discordâncias que evidenciam a alteridade. É por meio desse espaço de diálogo, interação e reflexão que se busca estabelecer a conexão e a empatia.
As Rodas de Conversa foram realizadas em seis Unidades de Ensino, atendendo às demandas específicas de cada uma delas: algumas apenas com estudantes de graduação e/ou pós-graduação, outras apenas com funcionários, e outras ainda envolvendo docentes e discentes.
Os resultados mostram que as Rodas de Conversa possibilitam o compartilhamento de dificuldades comuns, promovem uma forma de comunicação colaborativa e fortalecem o vínculo entre os participantes, favorecendo a experiência de pertencimento. Concluiu-se que as Rodas de Conversa podem ampliar o autoconhecimento em relação ao sofrimento vivido, por meio da expressão verbal e das reflexões em grupo decorrentes.
Na área da telepsicologia, nota-se um aumento da oferta de plataformas de Psicoterapia on-line, que visam conectar pacientes a terapeutas. O objetivo deste artigo é apresentar uma análise de nove plataformas brasileiras, em diálogo com normativas internacionais selecionadas através de levantamento bibliográfico. Por meio da observação mediada por computador e da análise de conteúdo, foram organizados 14 aspectos comuns entre as plataformas, permitindo a abordagem de questões sobre perfil, cadastro, indicação, buscadores, preços e pagamentos, testes, definições, segurança, restrições, tipos de atendimento e serviços oferecidos. Discute-se acerca do ambiente on-line, dos riscos de segurança, da lógica mercadológica e do domínio ético pertinentes a tal prática.
A partir do método fenômeno-estrutural, realizou-se uma análise de desenhos confeccionados em psicoterapia online durante a pandemia da COVID-19, com um estudante universitário que referiu ideação suicida no acolhimento inicial. Os desenhos mostram a evolução do processo, com temáticas que evidenciam a intensificação do sofrimento psíquico durante a pandemia.
O jovem revela talento estilístico ao se expressar em imagens, transmitindo o sentimento de perda e a angústia da solidão. Seus desenhos são considerados um autorretrato, apresentando elementos sensoriais e de rupturas, embora os primeiros predominem. Observa-se que o envolvimento subjetivo se desvela nas imagens, como indicativo da potência do encontro terapêutico mediado pelas tecnologias digitais.
A análise fenômeno-estrutural mostrou-se significativa, ao permitir a livre manifestação da subjetividade e uma compreensão profunda do sofrimento do aluno.
Most countries did not have a consolidated digital health structure before the pandemic. Both social distancing and mental health problems resulting from the situation justify the urgency of discussions on web-mediated interventions. The objective of this work is to present the panorama of technological mediation in mental health services and their specificities in the context of the pandemic. This paper is grounded on a critical look at the migration from face-to-face care to the Internet environment, highlighting: the international experiences using digital technologies in the pandemic context; the challenges in online consultations, emphasizing the importance of the ethical, technical/technological, and clinical domains, which are recurring issues in the international literature; the challenges and perspectives in the use of technologies. It is essential to develop strategies aligned with government incentives, aiming at the quality of the offered services and the guarantee of an adequate hybrid qualification.
Este trabalho pretende discorrer sobre a violência online, tendo como exemplos o cyberbullying, os discursos de ódio, o contágio e a indução à violência em crianças e jovens e os trollings. Tem-se como objetivo uma leitura fundamentada em estudos fenomenológicos, através da compreensão de aspectos do fenômeno. Nesse sentido, para apreender a violência online, é importante dar um passo anterior e evidenciar primeiramente o fenômeno da virtualidade/online. O que é o virtual e quais implicações essa mediação promove no mundo da vida?
Propõem-se questionamentos sobre como ocorrem as relações com si próprio e com os outros diante do alargamento das formas de interação influenciadas pelas tecnologias digitais. A pergunta central passa a ser, portanto: quem é o ser humano que vivencia o universo online? Busca-se apreender aspectos essenciais dessa experiência, voltando-se para a defesa do espaço do sentir, Aisthesis, e, dessa forma, para uma compreensão da corporeidade em sentido fenomenológico, sugerindo a necessidade de reflexões atuais sobre ética e estética.
O corpo está presente no espaço virtual e apresenta-se como uma corporeidade híbrida. Amplia-se, dessa forma, o tema da violência online para debates que pontuem caminhos no entrelaçamento entre vida online e offline, de maneira integrada, conectada e ética.